Textículos Peludos

April 24, 2010

ama(dor)

Filed under: Uncategorized — Clarence L'inspecteur @ 1:19 pm

Depois de muitas noites de sonhos repetidos que me cativavam e me roubavam esse equilíbrio essencial à vida diurna, resolvi passar à ação. As palavras cotidianas que me sustentavam haviam perdido o rumo. Todas as palavras haviam um som claro e forte accompanhado de um mistério oco que eu tinha de esclarecer. Tinha que cometer um ato, seja o que for, atravessar do outro lado do espelho, me encarar pleno, andar na outra beira do conceito de liberdade. Eu tinha que fazer minha a definição de perpetrar e explorar o sentido de vontade. Pensei em comprar um revólver na favela. Comecei a olhar pros fulanos que me cercavam nas ruas. Até marcar um. E eu estava pensando naquilo: No final, qual a diferença entre minha dor e a dor dele? Eu estava refletindo:  Quando matar o cara, quando atirar-lhe uma bala na testa, qual seria a diferença entre o sofrimento vazio seu e a maldição cheia minha?

April 12, 2010

sonho dela

Filed under: Uncategorized — Clarence L'inspecteur @ 3:10 pm

Acordei suando na escuridão do quarto. Podia sentir a presença pesada de outrem. Ela dormia ao meu lado, silenciosa, quente, ardente. Sentia a presença obscura de outrem. Toquei docemente no seu cabelo, passei a mão esquerda devagar no seu rosto. Ela teve um miúdo tique ao contato elétrico dos meus dedos. Peguei o maço na cabeceira e acendi um cigarro. Deu um suspiro e dei um trago em resposta. Me levantei sem ruído e fui até a janela. A chuva batia forte no vidro e fiquei ali fumando, olhando pra baixo. Depois de uns segundos, reparei o diabo que me encarava. Estava todo molhado no meio da tempestade. Me sorriu, dentes como relâmpagos, e me deu as costas. A folhagem tremeu. Nas árvores sumiu. Eu arrepiei. Ela soltou um grito e de súbito eu soube que estávamos no sonho dela.

April 1, 2010

mata(dor)

Filed under: Uncategorized — gugagessullo @ 4:04 pm

E às vezes eu ia até o túmulo, ficava ali parado olhando os números que eu mesmo havia escrito, 1968 – 1999, eu era responsável por aquela maldita data. Toda vida tem sua sentença e nem sempre é Deus quem cobra. Eu ficava ali esperando que alguém chegasse para que eu pudesse confessar, ninguém vinha, nunca. Eu queria dizer FUI EU QUE MATEI, queria me livrar daquelas palavras, pelo menos elas, já que todo o resto era impossível fazer desaparecer. Pelo menos sem elas eu poderia esquecer do poder inebriante que a morte dá. Eu levava flores, sentava e me perdia no tempo esperando que o tempo talvez voltasse, para que eu pudesse dar o tiro mais uma vez e prender eternamente comigo aquela euforia instantânea. Eu fui Deus e hoje eu era só mais um homem atormentado por ele.

matador

Filed under: Uncategorized — Clarence L'inspecteur @ 2:23 pm

Dez anos passaram desde o acontecimento. Será que se chama assim? Pode se chamar de acontecimento uma coisa criada completamente por a gente? Pode se tratar de evento, aquela criação arbitrária da gente, ou até de Deus? Sei lá. Se não tem causa, pode ter consequência? Nunca fui interrogado, ninguém me fez perguntas, nunca ouvi falar de qualquer ligação possível entre eu e o fusil. Eles acharam o fusil logo depois, eles o acharam na mata, mal escondido sob um montinho de folhas mortas. Disseram nos jornais que a arma do crime, ainda quente, tinha sido descoberta perto do corpo, já frio. Ninguém veio bater à minha porta. Dez anos passaram e às vezes sinto uma ira incompreensível, sinto o desejo de ir pra fora, soltar um grito na rua, pra eles me reconhecerem, uma vez por toda: MATEI.

March 24, 2010

sonhador

Filed under: Uncategorized — Clarence L'inspecteur @ 9:00 pm

Tudo começou com esse cliché de mãos limpas. Queria explorâ-lo. Ponce Pilate tinha dito “agora me lavo as mãos”, para significar seu afastamento do problema. Mas as minhas estavam limpas. Nada tinha a me arrepender. Eu me perguntava: será que é possível lavar mãos que não estão sujas? E que quereria dizer? Quereria dizer sentir uma estranha falta de inocência ou até mesmo a saudade dum crime horrível que nunca cometi?

sonho

Filed under: Uncategorized — gugagessullo @ 8:16 pm

Eu tive um sonho, sonhei com o diabo. Ele me dizia coisas horríveis e eu entendia tudo. Ele me dizia que eu havia matado um homem. Eu não me lembrava de ter matado ninguém, mas eu sentia a culpa daquela morte, ela carregava meus ombros, me pesava, me havia transformado em alguma coisa diferente. Olhei para o Diabo e então ele me passou carinhosamente uma arma. Ele era gentil. Eu nunca havia tocado em uma arma em toda minha vida. “Como matei aquele homem?”, perguntei e ele respondeu apontando para a arma.  Ela ainda estava quente e suja de sangue. “Porque eu matei esse homem?”, perguntei de novo. E ele me beliscou e aí acordei. Eu tinha minhas mãos limpas, mas a consciência ainda não.

Apresentação

Filed under: Uncategorized — Clarence L'inspecteur @ 5:55 pm
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Somos dois. Gugalinho é de São Paulo, mora aqui; sou daqui, moro em Montréal, sou Clarence.
Gugalinho fala português, tipo, bem bem bem. Porra, nem se impressione, o cara tá praticando desde o nascimento. Quer dizer. Escreve um português do caralho. Porra, normal, é um escritor, tem uma barba bem viril pra confirmar. Até tem o cheque do governo pra confirmar.
Agora, do meu lado é coisa diferente. Sou francófono, então falo um francês bom pra cacete, que é de se esperar, porra, nasci nele. Escrevo um francês foda também, porque sou um escritor, e pode ser que tenha barba pra provar, e óculos, e pau pau pau, mas vocês nunca saberão, nem gosto de me espalhar, claro.
Esse blog, TEXTÍCULOS PELUDOS, existe à partir de hoje, dia 24 de março, 2010. Não tem mandato, nem missão, nem sequer aspirações, só tem vontade de viver mais um dia. Mais um dia. Mais um dia.
Esse blog se escreve em português, mas é de Montréal, pois a gente tá aqui.
Esse blog só quer representar  a visão de dois caras montréalais cheios de más intenções e de mal gosto.
Pequenos textos com tesão.

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